Chega um instante na sua vida em que você começa a respeitar a si mesmo.
Mas, não é de entender seus porquês que falo, ou de justificar teus atos.
Não! Falo de algo maior. Algo duradouro. Uma conquista!
Falo da felicidade real. De amar a si mesmo. De não se sentir sozinho quando tua única companhia for você mesmo.
Sim, falo de não ter máscaras. Falo de ter coragem de abrir mão dos seus medos mais íntimos.
Chega um momento em que você sente que finalmente encontrou aquilo que procurava: um caminho para o seu interior.
Mas é tudo tão simples!
É tudo tão frágil e delicado por dentro que parece difícil não destruir nada.
Mas é preciso fazê-lo! É necessário desconstruir os elementos e reagrupá-los, frente aos novos aprendizados da sua vida. Essencial, então, esforçar-se em reentender-se, em reconquistar-se, em não perder o gosto pelo seu novo eu.
Somente assim, reaprendendo a ser você, é possível ser feliz.
A felicidade não foi feita para ser aprisionada. Para ser tomada nas mãos e guardada junto ao peito. Não, felicidade é sensível a egoísmo. Existe para ser partilhada, para nutrir vínculos e fazer florir amores.
É assim me vi, depois de longa caminhada.
Se todos sentissem o que sinto agora, não haveria tristeza...
Brotariam sorrisos e lágrimas.
Sobraria ternura.
Porque este é quem sou agora.
Este é quem quero ser.
A felicidade verdadeira em fluxo, a melodia em execução.
Do que sou agora, nem tudo é real, ainda.
É intenso, vívido e crescente.
Tem sabor de novidade.
Do que sou hoje tudo é reconstrução, tudo caminha para algo maior.
Até que um dia eu possa encontrar o amor, e ser felicidade plena.
Então, já não serei eu, mas sim, nós.
sexta-feira, 28 de outubro de 2011
Do que eu sou...
Pensado por Eolo, Senhor dos Ventos... Às 22:53 6 pensamentos...
quinta-feira, 4 de agosto de 2011
A vida que eu quis pra mim
Na vida que eu quis pra mim,
Tudo parecia muito simples e fácil.
A casa, os amigos, o trabalho, a música.
Grandes feitos profissionais, grandes viagens, grandes aventuras.
Diversas lembranças, diversas barreiras, diversas oportunidades.
A sala, o sofá, o quarto, a cama de solteiro.
O cachorro na varanda, o peixe no aquário.
Paredes estampadas e alguns bocados de recordações.
Comida de qualidade, mobília trabalhada.
Na vida que eu quis pra mim,
Tudo parecia único.
Sólido, insólito, insosso, insone.
Alegria, histeria, apatia, solidão.
Um mundo sem cores.
Falta o norte, o meio, o prumo.
Falta alguém para dividir.
Falta certeza, companhia, rumo.
Falta você existir.
E agora você existe.
E essa não é mais a vida que quero pra mim.
Quero palco e camarim.
Quero som em comunhão.
Quero você pra mim.
Total, fatal, legal.
Quero você em mim.
E não quero mais nada.
Sem clichê, sem sonho chinfrim.
Sem drama nem florim.
Só quero você pra mim.
Eu quero você pra mim.
Pensado por Eolo, Senhor dos Ventos... Às 00:59 1 pensamentos...
quinta-feira, 14 de julho de 2011
O Cuidador
Com o coração aos pulos, a respiração cansada e os músculos fraquejando, sentei-me no primeiro banco que achei.
O céu estava muito aberto e as estrelas enfeitavam o firmamento, felizes.
Fechei os olhos e por um instante tentei não pensar, tentei silenciar a mente ao menos uma vez. Obviamente, não consegui.
Fervilhavam idéias e pensamentos. Atropelavam-se pensamentos de toda natureza, com suas formas e cores indefinidas, com suas pulsões próprias, seus ideais.
Tudo que eu sabia, é que um sentimento destacava-se dos demais.
No fundo, eu sabia que deveria me entregar a ele e me deixar conduzir. Intuía sua natureza maior, e isso me trazia um conforto enorme.
Via-me o cuidador, mãos a ajudar.
Nunca soube o porquê disso, mas era como se houvesse necessidade em cuidar. Como se amparo ao outro fosse, especialmente, a mim. Como se tudo se enchesse de luz e derramasse por cada lugar, por cada pessoa, em cada pegada.
Sim, era aquilo que eu queria ser. Aquela era minha meta, minha realização.
Aos poucos, fui voltando a mim e retomando a sobriedade. Fui sentindo cada parte do meu corpo, até, por fim, abrir os olhos. Levantei-me refeito.
Sob o céu estrelado, prometi a mim que seria o cuidador.
Zelador de mim.
E nunca mais fui o mesmo.
Pensado por Eolo, Senhor dos Ventos... Às 22:43 1 pensamentos...
quarta-feira, 8 de junho de 2011
Saudade, sim
É saudade sim, não é, senão, outra coisa.
Uma vontade de trazer no tempo o que outrora pudemos partilhar: momentos.
Faz casa em meu coração, aloja-se confortavelmente, fazendo sentir em todo o corpo, mente e alma.
Sinto como se estivesse a centímetros do seu abraço, dos seus braços, do seu amor.
Amor este, que de tão fraterno, salva, alivia, revigora.
É saudade sim, mas não é tristeza.
Um desejo intenso de fazer feliz, de fazer sorrir.
Talvez, pelo hábito de conviver, muitas vezes, perdemos o brilho dos gestos.
Ou mesmo, esquecemos de sentir a emoção de estar na presença do ente querido.
Um sentimento tão gostoso que faz valer toda a vida. Faz renascer na amizade e na compaixão, no carinho e na ternura, no silêncio e no perdão.
É saudade sim, mas é de uma beleza inenarrável.
A intrínseca necessidade de fazer o bem, doar-se, fazer da felicidade do outro um desafio seu. Como é bom sentir correr nas veias o bálsamo iluminado do amor.
Mas não aquele egoísta, que limita e sufoca, que retém e determina... É, senão, aquele que cria oportunidades, que ensina, que educa, que exemplifica e que vive.
É esquecer de si para lembrar do outro, é perder-se para se encontrar no amor.
É saudade sim, são versos sentidos na poesia da vida.
O fruto bendito de um sentimento que anseia por reviver-se.
Sinal maior da grandeza de um instante, da força do coletivo, a essência da construção do ser. Não se pode conhecer a si sem entender as necessidades do outros.
Não, a saudade não é uma cruz que, de forçoso que é, fere aquele que o carrega, qual algoz violento que deseja subjugar à força.
A saudade é uma dádiva, reconhecimento da benção divina que liga duas pessoas.
É saudade, sim. Não é coisa outra que não o amor.
Laço que não se desfaz pelo efeito do tempo.
Força que move o universo, que sou, que é você.
Saudade é a tendência natural que tudo tem a reencontrar-se.
Tudo a seu tempo. Não há solidão, não há receio...
O amor espera, paciente, pelo instante em que tomará a cada um.
A oportunidade virá. Acalmemos o coração e eduquemos o espírito, porque só aquele que se conhece pode livrar-se do medo de ser feliz.
Sejamos felizes!
Pensado por Eolo, Senhor dos Ventos... Às 21:29 2 pensamentos...
terça-feira, 14 de setembro de 2010
Feitos de tudo...
Existem muitas coisas no mundo.
Existimos pedras, rios e lagos. Areia, pó e carvão. Água, terra, fogo e ar.
Há mais o que se notar, o universo mineral, a beleza do inorgânico.
Mas evoluiremos, alcançaremos a vida, ainda que rudimentar.
Brotaremos semente, cresceremos raízes, exalaremos em flor.
Grãos, pólen e folhas. Frutos e danças pro sol. Água, terra, vida e ar.
Vê-se por todo lugar, o universo vegetal, a inocência da vida-planta.
E ascenderemos, obteremos a percepção, inteligência rudimentar.
Gestados no ventre materno, os primeiros passos, os olhos abrindo.
Ave, peixe, réptil. Felino e inseto. Presa e predador. Água, instinto, vida e ar.
Há muito por ensinar, o universo animal, a vida caminha lenta.
Elevaremos então, rumo à perfeição, livres pra sonhar.
Olhar, toque, sentimento. Gestos e viver em sociedade. Água, instinto, vida e inteligência.
Alma, transcendência da vida. Alcançaremos, então, a redenção.
Feitos de tudo... pedra, semente, ventre materno, alma.
Da palavra e da calma, da poesia e do amor.
Pensado por Eolo, Senhor dos Ventos... Às 20:16 3 pensamentos...
Dia de cão
Bem, antes de qualquer coisa, depois de muito tempo resolvi escrever no Loucuras.
Não que eu não sinta falta, ou necessidade de escrever, falta-me mesmo é tempo. Hoje, em especial, tenho a oportunidade de escrever e de ter tempo. Mas, dessa vez, não estou aqui para falar de personagens, criar histórias, ter sonhos... Vim para falar de mim, dos meus problemas, dos meus receios. Só dessa vez, pretendo não ficar atrás de palavras, ou medir conseqüências de onde estas podem chegar. Hoje, só hoje, eu cansei.
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Hoje foi um dia difícil, difícil mesmo.
Muita agitação, muita correria, muito estresse.
Recuperando-me de uma crise de garganta, o que não me permite cantar (sim, isso pra mim é terrível).
E nesse alucinado passar das horas, não sobra tempo pra respirar, pra pensar, pra interpretar os outros.
Com essa frustração do dia-a-dia que nos trás a universidade, prazos, regras, notas, por vezes, nos esquecemos de coisas mais importantes: pessoas.
E sim, pessoas TAMBÉM SÃO coisas, pelo simples fato de se portarem como tal.
Após um fim de semana de estresse intensivo, tendo em vista concluir um trabalho que precisava ser apresentado hoje (e foi), o (não tão) nobre cavalheiro que aqui lhes escreve, ouviu, aguentou, aturou, levou, um arsenal de patadas/cortadas/(até)xingamentos...
Observação válida: não é por fazer zootecnia que eu gosto de tomar patada. Não! Eu só tento não ficar batendo de frente com as pessoas... mas eu nasci com imã, então, seguiremos.
E tudo isso porque, na sexta-feira (ou quinta) contrai a tal da bactéria que me levou a ter essa infecção de garganta. Com isso, passei momentos MARAVILHOSOS! Dor de cabeça, enjôo, febre, coriza, desprezo, ironia, prepotência, arrogância... Opa, esses últimos, que eu me lembre, não são sintomas de infecção.
Retardadamente, me esforcei... Fui a todas as reuniões, ajudei todos os demais membros do grupo, estudei um pouco da parte de cada um. Por ser bonzinho? NÃO! Porque a minha parte não era dissociável dos temas dos demais membros... Simples assim.
Em decorrência disso, tentei ajudar o grupo, claro, oh! Afinal, eu também dependia dele. Mas, aí está. O que uma pessoa passando mal (mesmo!) por fazer? Pouco!
E daí veio uma ONDA de maus pensamentos, más palavras, más ações, enfim... más.
Outra observação válida: todas vindas da MESMA PESSOA!
Terceira observação válida: a menos de uma semana, essa mesma pessoa me chamou pra conversar, porque estava mal, e queria conselhos. Amigavelmente, fui!
E no desenrolar dos fatos... outros problemas ao longo do fim de semana e da segunda feira... Prova, apresentação em simpósio, etc...
Com o tempo passando, a correria das coisas e o estresse subindo mais que a cotação do petróleo, o que a criatura retardada aqui faz: deixa tudo de lado (DE NOVO!).
Sinceramente, eu mereço!
Concordo com uma frase que li em uma cadeira da UFV: Princesas, acordem! Quem nasce pra ser sapo nunca chega a príncipe!
É assim que a banda toca...
O caminho do bem é foda.
E a apresentação veio, foi, e a criatura burra (eu!) continuou a relevar... Bem, aí já mereço 50 chibatadas e ser arrastado pela medina. Enfim, pula essa parte.
E assim concluo o meu dia MARAVILHOSO, depois de um fim de semana ESPETACULAR e uma prova SUPIMPA!
Graças a Deus... estou sentado no meu quarto, na minha cadeira no computador, escrevendo no meu blog, ouvindo as minhas música. Bem egoisticamente mesmo, e daí?
Se eu não pensar em mim ninguém pensa...
Como eu disse lá no início... Vim escrever porque EU quis, EEEEEEU!
e vai ser bom ler isso daqui a uma semana, quanto tudo se tornar defasado, ridículo e sentimental.
Acabou.
Pensado por Eolo, Senhor dos Ventos... Às 18:55 1 pensamentos...
sábado, 20 de março de 2010
Outono
É outono,
Nas estações da vida
É outono na poesia,
Na magia, na apatia
É outono relembrando
As memórias do verão
As folhas secas no chão
Colorindo a estrada
Os passos sobre a calçada
Marcados pela saudade
E falta sinceridade
Pra dizer que acabou
Se vai a estação do calor
Se vai aquele fulgor
Enternecido
Pela luz solar
E fica a saudade de amar
Do tempo que já passou
E sol se alinha com o Equador
É equinócio de outono
É tempo de novos planos
Mudança de dentro pra fora
Mudança de fora pra dentro
Admite-se um novo intento
Me invento, reinvento
Represento a estação
Admiro as folhas no chão
Tiveram maior coragem
Pra fazer longa viagem
Seguir o caminho do vento
Agora é novo momento
O Outono começou.
Pensado por Eolo, Senhor dos Ventos... Às 10:37 6 pensamentos...
terça-feira, 28 de abril de 2009
Vendedor de palavras.
Meu bom freguês, que bom vê-lo aqui!
Acredito que esteja buscando aquele de sempre, né?
Ah, claro... Entendo sim. Um produto mais forte.
Algo criativo, repleto de palavras bacanas e com mensagens cheias de entusiasmo e romance. Verei se tem algo desse tipo aqui.
Desculpe, mas o produto solicitado está em falta no estoque. Até algum tempo atrás eu tinha caixas e caixas guardadas aqui, mas em um surto de tempo sumiram todas.
Lastimo muito decepcioná-lo, mas acredito que a distribuidora tenha falido.
Oh, sim... Obrigado pela preferência.
Caseiro? Claro, claro. Cheguei a cogitar a possibilidade de produzir algo em casa, mas não poderia colocar em risco a vida das pessoas vendendo produtos de baixa qualidade.
- Não, não... É fórmula única. Não possui genérico.
- Sim, claro... Posso olhar pra você. É, desculpe. Mas também não temos desse.
- Bem, temos desse sim. Mas ele pode causar efeitos colaterais como dores de cabeça, crise de choro e reflexão profunda.
- Não, esse não tem muito conteúdo.
- É, temos este, mas é efeito placebo... Só funciona quando você se convence de que é bom.
- Ah, claro. Posso pegar sim, mas tome cuidado com este, hein? No máximo uma dose por dia!
Reavaliei o estoque por dias e dias, liguei pra vários os revendedores, li anúncios de jornal, revistas de fofoca, livros infantis, bulas de remédios velhos, embalagem de detergente. Nada novo...
Mas espera! Não vai assim, de mãos vazias. Leva este aqui, é cortesia da casa:
(E no pedaço de papel que fora entregue, haviam algumas palavras, que diziam assim:
"Quando mudamos nossos olhos de ver o mundo, o mundo muda pra gente
O desbotado ganha cor, e o que é velho se renova
A flor murcha fecha-se em jovem botão
E o fim da história parece um grande mistério a ser desvendado
Tudo quando muda o mundo, muda tudo quando o mundo
Nos parece diferente.
O passado vira presente, e o futuro...
Ah, deixa o futuro pra depois")
E o vendedor de palavras voltou às prateleiras novamente.
Pensado por Eolo, Senhor dos Ventos... Às 20:00 14 pensamentos...
quarta-feira, 18 de março de 2009
(07) Re-começo
A melodia sussurrada de Joanna cessou-se quase instantaneamente ao vê-lo. O rapaz virou-se, fitando-a com um olhar melancólico e opaco. Aquele momento parecia um tanto surreal para a garota. Os claros olhos azuis do qual tanta saudade sentira agora petrificavam-na pouco a pouco... O rosto marcado, as roupas rasgadas, o corpo de homem, a cabeça raspada, os papéis em seu colo.
O jovem levantou-se, deixando todos aqueles papéis espalhados sobre o sofá. Em duros passos firmes ele alcançou Joanna. E ela sequer podia se mexer... Ele a olhou de bem perto, seu olhar apresentava um misto de dor e tristeza. Naquele momento o mundo pareceu parar diante da eternidade que duraram aqueles segundos. E os braços se entrelaçaram, apertando bem forte. Lágrimas e suspiros misturavam-se vagarosamente aos sentimentos que eram trocados naquele abraço. Não foi preciso dizer nada. As mãos duras e calejadas dele sobre as costas dela, as mãos macias dela afagando-lhe a cabeça. E ambos choraram... E milhões de pensamentos daqueles anos todos escorreram devagar entre eles.
Os pensamentos de Joanna, que muito demoraram pra entrar em ordem, agora bagunçavam-se novamente... Como uma prateleira de livros que tomba, misturando todos os conhecimentos, sem qualquer ordem, sem qualquer objetivo.
Depois do primeiro contato, sentaram e conversaram por horas. Joanna contou a Richard sobre os principais eventos ocorridos nesses anos todos, e fez muitas perguntas também. Ele explicou a ela sobre os sofrimentos todos daquela Guerra, e sobre a peste que levou seu pai à morte. Falou também sobre um amigo feito lá, que morrera para salvá-lo durante uma invasão inimiga à Divisão. E assim continuaram conversando até a chegada de Hill ao apartamento.
Depois de apresentados, Joanna preparou o jantar e todos sentaram-se pra comer. Era notório o modo como a guerra influenciara nos modos de Rich. Sua irmã o observava com delicadeza, mas, por hora, assustava-se com alguma feição ou palavra que lhe parecia estranha. Após o jantar, sentaram-se na sala para ouvir Joanna tocar brilhantemente seu trompete. E os olhos de Richard mais uma vez choraram, vendo a mulher incrível que sua irmã havia se tornado... E naquele instante, em que a suava melodia inundava o ambiente ele se lembrou de sua infância, e dos poucos momentos que tivera com Joanna. As traquinagens de criança, o passeio no parque aos sábados, brincar com a neve no inverno. Momentos que violentamente viraram lembranças, a trajetória da sua vida, as amarguras da vida de Joanna, a morte de seus pais, as cartas que não chegavam...
- Joanna! – Berrou Richard subitamente, interrompendo a música- As cartas! Perdoe-me pelas cartas. Elas não chegavam a nós. Somente fui ter ciência quando me foi permitido o regresso. Me perdoa Joanna, eu não estava aqui quando você precisou de mim. Eu não estava aqui pra te ver mudar, pra te proteger. Eu prometi que cuidaria do papai, e eu o perdi. Eu não estava do seu lado... Quando você chorava, quando precisou cuidar da mamãe, quando arrumou trabalho. Eu não soube... Eu não... pude.
A cabeça de Joanna rodava mais uma vez... Ela conhecia aquela sensação. Quantas vezes sentira aquilo em toda sua vida? Seu corpo inteiro tremia, e as lágrimas brilhavam no seu rosto, igual ao trompete em suas mãos. Seus olhos fitaram os papéis sobre o sofá... Reconhecera sua própria letra. Por quantas vezes aquelas cartas não foram seu único refúgio? Ela não conseguia aceitar que todas aquelas palavras chegaram frias ao seu irmão. E entre tantos sentimentos, quantas foram escritas com tanto carinho e dedicação, outrora com tanto medo e saudade? Mas, porque? Porque tinha que ser daquele jeito? E por um instante Joanna fechou os olhos, e chorou. Os braços fortes de seu irmão mais uma vez a abraçara. E uma chama dentro dela se acendeu. Sentiu-se segura, protegida...
- Richard... Não há porque você se desculpar, meu irmão. Você, assim como eu, é apenas vítima. Vítimas Rich, vítimas da vida. Mas, saiba... Você sempre esteve aqui, em meu coração. E foi a certeza de reencontrar-te que me fez chegar até aqui. Não há mais porque sofrer, irmão. Estamos juntos novamente, e isso é o que importa. Por mais que o tempo passe, eu continuarei a te amar, da mesma forma, com a mesma intensidade. Você é parte de mim Richard, uma parte que eu nunca vou esquecer. E como parte de mim, é meu dever cuidar de você... Porque cuidar de você é cuidar de mim também. Eu te amo, irmão. E sempre amarei.
Durante alguns minutos tudo que se ouviu foi o som das lágrimas e das respirações ofegantes. E aquele abraço poderia durar pra sempre sem que nada mais precisasse ser dito, mas não foi isso que aconteceu. Surgiu de repente, por todos os cantos, um som repleto de vida. Uma melodia firme, que ecoava gentilmente do sax de Hill, eternizando aquele momento.
E foi assim que recomeçou minha história naquela noite linda. Espero ter sido capaz de contar fielmente minha vida a vocês, obrigado por me escutarem.
Um beijo repleto de paz.
Joanna.
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Capitulo anterior: http://loucurasredigidas.blogspot.com/2009/02/06-felicidade-silencio.html
Pensado por Eolo, Senhor dos Ventos... Às 20:41 7 pensamentos...
quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009
(06) Felicidade-silêncio
- Um ano depois –
Joanna caminhou lentamente pelo estreito caminho e sentou-se na calçada, admirando o reflexo da luz solar em seu trompete amarelo-ouro. Uma brisa leve afagava-lhe os cabelos. E fechando os olhos docemente, tocou uma suave melodia. Perfeitamente harmônica, a música soou pelo ar, enquanto lágrimas leves escorriam pelo rosto da garota. E depois de ecoada a última nota, ela sorriu.
Abrindo os olhos devagar, pegou com carinho o ramalhete de flores em seu colo, e colocou aos pés da lápide de sua mãe. Levantando-se, Joanna caminhou firmemente, sem olhar pra trás nenhuma vez.
Apesar de tudo, não se sentia triste. A tempestade de sua vida passara, e seu namoro com o Hill estava fluindo perfeitamente. Ela o amava de todo o coração, ele também. A confiança entre os dois era algo realmente admirável para um casal de pessoas tão novas, e um se dedicava ao outro de peito aberto, como todo respeito e companheirismo que o amor deles merecia.
Joanna estava a alguns meses dos seus 18 anos, porém, atingir a maioridade perante a sociedade não era nada diante do equilíbrio emocional e da maturidade que ela havia conseguido com o passar dos anos. Havia se tornado agora gerente da livraria, que tornou-se um ponto freqüentadíssimo devido às suas apresentações com o Hill. Tornara-se também membra do Conjunto de Sopros da Divisão, um verdadeiro feito para alguém com essa idade.
Ela e Hill dividiam um pequeno apartamento, e a casa de Joanna agora era alugada pra uma família estrangeira por um valor bem razoável. A Sarah e o Tom agora namoravam, pra espanto de todos. Muitas coisas mudaram por ali.
Joanna dera prosseguimento aos estudos e em pouco tempo poderia tentar uma faculdade, ou um curso profissionalizante. Apesar de lá não haver nada sobre música ou letras, que eram suas áreas de maior afinidade e domínio.
A jovem caminhou lentamente pelas ruas até chegar ao prédio em que morava. Subiu as escadas sem pressa alguma, e até cantarolava algo baixinho. E dando alguns rodopios pelo corredor, parou em frente ao 201, foi entrando despreocupadamente. Porém, ao virar-se deparou com uma figura estranha sentada de costas no sofá, tinha a cabeça raspada e vestia uma roupa suja e rasgada. Joanna sentiu um aperto no peito, e o ambiente encheu-se de um frio sobrenatural a arrepiar-lhe a pele. Sentiu medo, como a muito não sentia.
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Capítulo anterior:
http://loucurasredigidas.blogspot.com/2009/01/05-lagrima-despedida.html
Pensado por Eolo, Senhor dos Ventos... Às 22:09 6 pensamentos...
sábado, 31 de janeiro de 2009
(05) Lágrima-despedida
Com o peito arfante, Joanna seguiu em direção a sua casa, correndo. As duras palavras do soldado ainda ecoavam em seus ouvidos, e a sensação de estar desprotegida era estarrecedora. Correndo a passos sensivelmente maiores que suas pernas, a garota invadiu sua rua e mirou sua casa. Sua mente gritava por socorro, queria sentir-se segura, queria abrigar-se do medo.
Com um golpe certeiro, Joanna abriu a porta de uma vez e a bateu com força. E em um giro lento encostou-se na parede, onde foi escorregando lentamente até tocar o chão. E enfim, chorou. Lágrimas grossas varriam-lhe a face, arrastando consigo o gosto amargo e salgado de desesperar-se.
A menina não soube estimar quanto tempo passara ali, sentada. E apesar de seu corpo apresentar naquele instante um peso descomunal, levantou-se e observou janela a fora. Seus olhos arregalaram-se, e seus ouvidos sensibilizaram-se diante do baque pesado que se espalhava pela rua. Os soldados marchavam, e berravam com ira, batendo os pés e as armas no chão.
Seu coração vibrou ainda mais forte e determinado do que na livraria. O estrondo repetitivo determinava o ritmo, tudo naquele lugar pulsava. Joanna correu ao quarto de sua mãe, mas notando seu repouso pôs-se em silêncio, girando a maçaneta levemente e fechando o quarto à chave.
Com doces e trêmulos passos, a garota sentou-se ao lado da cama de sua mãe. Encostou devagar sua cabeça no colchão macio. Aos poucos, sua mente foi voltando pro lugar, e a sensação de segurança aqueceu se coração. A simples presença de sua mãe a fazia iluminar-se por dentro. Sua mão foi vagarosamente ao encontro da face daquele ser bondoso ao seu lado. Tocou-a.
Naquele instante suas pupilas dilataram-se a ponto de esconder a íris, e o sangue parou em suas veias. Ela estava gelada, assustadoramente gelada, e úmida. Seus músculos não respondiam, seu corpo petrificara-se, por completo. Uma dor aguda instalara-se em sua cabeça. O quarto rodava rapidamente diante de seus olhos, e o ar faltava-lhe nos pulmões. Seu corpo pendeu para o lado e Joanna permaneceu no chão, desacordada.
- Minha filha – Disse a voz paciente de sua mãe – Você vai precisar ser forte. É chegado o tempo, meu anjo, de seguir para o sem fim. Orgulho-me muito de você Joanna, do seu caráter, da sua fibra, da sua força de vontade. Meu tesouro, tenho que partir. Estarei sempre com você, quero que se lembre disso. E se precisar me encontrar, procure dentro de você, estou aí, em seu coração. Adeus Joanna.
- Nãaaaaaaaaaaaaao – Berrou Joanna em um grito rasgado. – Pelo amor de Deus mãe, nãaaaaao. Você é tudo que tenho. Não me deixa. Por Deus mãe, não me deixa.
O choro ininterrupto da garota abafou seus lamentos... Sua voz não se atrevia a dizer nada. Joanna era só escuridão por dentro. Agora, definitivamente estava só. Onde estariam seu pai e o Richard? Porque tanto sofrimento, porque tinha que ser assim? Seria tudo aquilo um pesadelo? Se o fosse, havia passado da hora de acordar.
A menina dos olhos castanho médio encontrava-se dilacerada ao lado do leito de sua mãe. A pele pálida, o olhar distante, a pulsação fraca. Adormecera ali. Rodeada por suas dores e prantos. Tocou novamente o corpo gélido de sua mãe na esperança de encontrar alguma fagulha de vida que lhe reacendesse a esperança.
Joanna ouviu batidas na porta da sala. Imaginou ser o soldado de outrora, mas dada a situação em que se encontrava, não havia mais nada que pudesse perder. A garota seguiu até a porta com um andar rastejante e fraco, e nem se quer se deu o trabalho de perguntar quem era. Em um movimento suave e cansado, abriu a porta.
Pela primeira vez naquele dia sentiu seu coração bater por algo que realmente a fazia feliz, era Hill, com seu típico ar de preocupação. E antes que ele pudesse perguntar alguma coisa, ela o abraçou. E encostando-se em seu peito, chorou. Um choro abafado, silencioso. Lágrimas brilhavam como pérolas no rosto apático da garota.
Ela o puxou pra dentro e fechou a porta. O silêncio da noite parecia música diante da carga de sentimento que habitava Joanna naquele instante. E abraçando-se fortemente a ele, a garota deixou a tristeza escorrer aos poucos, em gotas suaves e salgadas, que lhe brotavam dos olhos.
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Capítulo 04: http://loucurasredigidas.blogspot.com/2009/01/04-acontecimento-surpresa.html
Pensado por Eolo, Senhor dos Ventos... Às 01:54 9 pensamentos...
terça-feira, 6 de janeiro de 2009
(04) Acontecimento-surpresa
Naquele dia Joanna acordou um tanto assustada. Tivera um sonho ruim... Eram pessoas em meio a uma guerra, dentre eles, Richard. Porém, não estava sozinho, segurava no colo o corpo desfalecido de seu pai. Em seu sonho, seu irmão não apresentava mais claros olhos brilhantes, mas sim olhos chorosos e cansados. Os cabelos já não eram loiros e macios, e a pele já não era alva como a neve. Tudo parecia morto, seco, fúnebre.
Como não podia se demorar pensando naquilo, Joanna levantou um tanto atordoada e foi direto se vestir. Estava frio demais para pensar em tomar banho... Além de tudo, seu relógio já marcava algo perto das 8h, portanto, estava atrasada. Como não havia nada pra comer, saiu em jejum. E diferentemente do seu comportamento habitual, naquele dia ela não foi ao quarto de sua mãe para dar-lhe um beijo de bom dia.
Correu então até a livraria... A rua estava incomumente vazia naquela manhã, e as lojas estavam todas fechadas. Joanna estranhou o fato, mas preferiu abrir a livraria assim mesmo. Como não haviam clientes, começou a ensaiar algumas melodias no trompete. De vez em quando, o Hill ia até lá para ensaiarem, e chegaram até a tocar juntos pra alguns clientes.
Quase 2 horas se passaram, e ninguém apareceu... Resolveu então escrever ao Richard. O fato de não receber resposta alguma a intrigava muito. Talvez, as cartas enviadas por seu irmão tivessem com o endereço errado, e tenham retornado. Não queria pensar nisso, preferia pensar que suas cartas eram lidas com atenção, e certa dificuldade, por seu irmão em algum lugar.
“Richard,
Desculpe demorar tanto pra te escrever... É que as coisas estão difíceis pra mim. Estou trabalhando demais. Além de tudo, cuidar da mamãe piora um pouco as coisas. Ontem ela até estava melhor. Tinha nos lábios um sorriso pálido de dever cumprido, e me olhava como se sua consciência estivesse tranqüila. Às vezes penso em como seria se eu a perdesse, prefiro nem pensar, acho que enlouqueceria.
Estou ensaiando quase todos os dias com a clarineta, da próxima vez que nos virmos espero tocar pra você. Segundo o Hill, em pouco tempo estarei tocando bem o bastante para entrar no grupo de instrumentistas mulheres da divisão, mas não sei se estou pronta o bastante.
Por falar no Hill, nós estamos cada vez mais amigos Rich, na verdade, amigos demais. Esses dias ele acabou me beijando, e apesar de ter sido bom ele ficou rubro e foi embora. Talvez ele realmente goste de mim como a Nancy e a Sarah me dizem. Mas elas torcem pra que eu namore o Tom, já que somos amigos há bastante tempo. Não sei se namorar agora seria legal... Minha vida já está atribulada com as atividade que tenho e eu acho que...”
- Bom dia garota, por que abriu a livraria hoje? – Disse uma voz grave, que encheu a livraria e fez Joanna parar de escrever.
- Desculpe senhor, mas não entendo o porquê de não abri-la. – Respondeu a garota, timidamente.
- Acaso não sabes que dia é hoje? – Falou em tom bravio o soldado a sua frente.
- Desculpe-me senhor, é alguma data especial? Moro nessa cidade desde que nasci e não me lembro de ser data comemorativa. – Disse baixinho uma Joanna assustada, abraçando aos seus cadernos, devagar.
- Feche esse estabelecimento agora e vá para casa. Avise a todos os seus parentes para que não saiam. E isto é uma ordem. Qualquer pessoa nas ruas a partir das 14h será considerada como zombeteiro, e estará indo contra as leis do país. – Berrou heroicamente o soldado com seu olhar frio.
- Senhor, afinal, o que está havendo na cidade? Hoje é dia útil, não posso manter a livraria fechada e também...
- CALE A BOCA – Gritou o homem – Como ousa desobedecer às ordens do Exército? Escute aqui, garota atrevida, feche isso imediatamente e vá para casa. E não faça mais perguntas!
Os olhos frios do soldado haviam transformado-se em brasas ardentes a invadir a mente de Joanna. A garota não se conteve, e desabou no choro enquanto organizava tudo e se preparava pra fechar a loja. Seus pensamentos moviam-se intensamente entre lembranças de sua mãe acamada, seu irmão e seu pai, o Tom e o Hill, dentre outras coisas. Sentia medo, muito medo. Em gestos rápidos ela fechou a loja, segurando junto aos seios os cadernos onde escrevia suas cartas e poesias... E sem olhar pra trás ela correu para casa à longas passadas, deixando pra trás os homens dos olhos de brasa. Sua mente estava confusa, e Joanna temia que as coisas piorariam ainda mais.
“Por favor, ajude-me Richard... Onde quer que esteja, sei que pode me ouvir com seu coração.” – E as lágrimas rolavam amargas pelo rosto da garota. O medo era seu companheiro, e o desespero, seu capataz.
Para quem não acompanhou os outros capitulos, aí vai o link do capitulo anterior.
http://loucurasredigidas.blogspot.com/2008/12/03-realidade-viva.html
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segunda-feira, 8 de dezembro de 2008
(03) Realidade-viva
Richard, desculpe se essa carta demorou a ser escrita. Sei que prometi que não demoraria, mas muitas coisas aconteceram. Tudo tem mudado por aqui, dentro e fora de mim. Não consigo entender Rich, e acho que jamais entenderei o que as pessoas chamam de “a dinâmica da vida”.
Tenho trabalhado bastante na livraria, pra falar a verdade, quase não vou mais a aula. Agora, mais do que nunca, agradeço ao Sr. Toubach pelo trabalho, pois o estado de saúde da mamãe piorou muito, e o gerente da fábrica a demitiu pra evitar gastos com a saúde dela. Nossa única fonte financeira agora é meu trabalho. Com ele, amadureci muito.
As coisas por aqui andam de assustar Richard. Às vezes, sinto que não sou uma jovem... Talvez por não me comportar, vestir, pensar e falar como tal. O ser humano me espanta, irmão. Já nascemos com um fim: impedir que o ciclo se rompa. O ciclo de viver uma vida inteira ‘pagando’ à sociedade pelo simples fato de ter nascido. Já está tudo pronto. A mulher é frágil, o homem, rude. Li sobre isso esses dias... Falava sobre o conceito da “mulher-boneca” e do “homem-de-ferro”, encantei-me como o modo como a autora consegue te fazer ver que o ciclo existe, mas o que o alimenta é a nossa omissão, nossa apatia social.
Tenho tentado cuidar da mamãe, mas não podemos pagar um médico. Seria quase todo o meu salário para apenas uma consulta. Tem dias que ela nem sequer come... E quando saio, sei que ela chora e reza a Deus pra que morra logo. Não sei mais por onde anda a mulher que era meu exemplo. Talvez ela esteja aqui dentro, em algum lugar bonito.
O trabalho aqui na livraria é bom. De vez em quando meus amigos vem aqui, então conversamos um pouco sobre a vida e tomamos um café, depois retorno pra solidão do balcão escuro e dos livros. É estranho ficar sozinha aqui o dia quase todo. Livrarias não são lugares tão visitados quanto deveriam, mas de vez em quando tenho umas surpresas. Sabe quem veio aqui há alguns dias? Aquele de quem te falei, o Hill, o saxofonista da banda. Ele veio me perguntar porque não tenho mais ido aos ensaios, e se ofereceu pra ensaiar comigo aqui na livraria mesmo de vez em quando. Ele não é tão fechado quando parece, e eu nem sequer me lembrava que fosse tão bonito. Mas não vem ao caso. O Thomas, digo, o Tom ficou com uma cara meio emburrada quando contei a eles. Mas nem ligo pra isso.
Richard, esses dias fui à Divisão para saber notícias suas e do papai, e eles disseram que os nomes de vocês não estavam na lista de filiados, isso até me preocupou um pouco. Mas deve ter sido apenas um desleixo deles. O sargento com quem falei não me foi muito receptivo. Mas eu o entendo, talvez seja essa a função dele. Amedrontar pessoas pra “manter a ordem”.
Queria ter notícias de você também Rich. Porquê você nunca responde minhas cartas? Queria saber como estão você e o papai, e quero saber sobre sua vida aí, sobre o que tem feito, etc. Sinto saudade de vocês irmão. Esses dias tive um pesadelo terrível com vocês. Sonhei que eram seqüestrados e torturados em troca de informações sobre a Divisão, acordei com muito medo, mas não contei nada a mamãe.
Por favor Richard, me responda assim que puder. Pra que eu possa ficar mais tranqüila, ok?
Fico por aqui. Espero escrever logo a ti novamente.
Tentarei manter vocês informados sobre a doença de mamãe.
Leve a sério o que te falei, certo?
Da um grande abraço no papai pra mim, e um pra você também.
Qualquer coisa, escreva pela Divisão.
Que Deus os abençoe.
Obs: junto com essa carta vai uma medalhinha que comprei pra você. Ela é estampada com a figura de um anjo segurando duas espadas. Não sei quem é esse anjo, mas me lembra muito você.
Obs2: Não perca isso!
Obs3: Eu amo vocês.
Cuida do papai Richard.
Um beijo de sua irmã,
Joanna.
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Link do Capítulo 02: http://loucurasredigidas.blogspot.com/2008/12/02-tempo-passado.html
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terça-feira, 2 de dezembro de 2008
(02) Tempo-passado
Richard, há quanto tempo não nos vemos, irmão. Acabo de ler aquela cartinha de 6 anos atrás. Hoje é meu aniversário... Estou fazendo 16 anos. Como vão as coisas por aí? Muitas coisas aconteceram por aqui. Sabia que já fazem 3 anos, 7 meses e 14 dias que a gente não se vê? Pois é. Vou listar alguns fatos importantes daqui pra você:
- Minha professora faleceu em decorrência de uma parada cardíaca. Assim que a sirene ecoou pelos corredores, ela foi andando e depois de alguns poucos passos tombou, vítima de um ataque fulminante. Seu velório foi bastante cheio, era bastante querida por todos.
- Nunca mais nevou como naquele ano... Apesar de que mês passado a mamãe ficou acamada, com um quadro moderado de pneumonia. Ela está muito frágil desde o acidente do papai, vez em quando ela fica num canto chorando, enquanto se faz de forte na minha frente.
- Minha vida mudou demais Richard. Meu corpo está estranho, me sinto inchada, disforme. Além de tudo, me incomoda muito o período menstrual, me sinto irritada, nervosa. Vejo que meu corpo está ficando parecido com o da mamãe, engordei muito, em pouco tempo. O 1º ano colegial é estranho Rich, as pessoas são ainda mais frias e nada é permitido. Às vezes, me sinto envergonhada por minhas roupas serem simples. O preço das coisas aumentaram muito. O trabalho da mamãe tem dado apenas para comprar comida. Começarei a trabalhar no próximo verão, na livraria do Sr. Toubach, lembra-se dela? Fica algumas ruas depois daqui.
- Consegui alguns amigos legais. A mamãe não me deixa sair com eles à noite, diz que é arriscado andar à noite por aqui. Mas eles são bacanas, de vez em quando tomamos um sorvete juntos. Somos 5... Eu, o Willian, o Tom, a Nancy e a Sarah. Confesso que o Tom me vê com bons olhos, mas a mamãe não aprova. Diz que ele não é um garoto sério, e que quer apenas se aproveitar de mim, mas não acho que seja isso.
- Ah, a Sarah é aquela mesmo. Nós nos entendemos, e acabamos virando muito amigas. A família dela foi muito afetada pela crise financeira, e parte dos negócios entraram por água abaixo. Depois disso ela descobriu que o mais importante da vida está no que somos, e não no que temos. Nos encontramos na rua, certo dia, e ela me pediu desculpas. Acabamos por conversar e agora estudamos juntas novamente.
- 16 anos não é fácil Richard, agora toco trompete na banda da escola e trabalho na biblioteca. Lá é meio parado, mas é legal. Um dos meninos da banda, o Hill (não sei o nome dele, mas o chamam de Hill), veio pra cá depois da crise. Ele morava no norte dos EUA, em uma cidade pequena que foi transformada em zona de treinamento. Depois disso, seu pai resolveu vir pra cá. A história dele é muito triste, ele perdeu a mãe e dois irmãos em um acidente de trem. Ele não fala muito, talvez por causa disso. É o melhor saxofonista da banda, mas está sempre sério. No intervalo, ele fica sentado sozinho, em algum canto... Dizem que ele fica o tempo todo relembrando o acidente, do qual saiu sem marca alguma.
Tenho muitas novidades pra contar ainda Richard, mas por enquanto fico por aqui.
Não demorarei a escrever-te novamente.
Saudades de você Rich, e dá um beijo no papai pra mim.
Como está a perna dele, não deixe-o fazer muito esforço, ok?
Já aprendeu a consertar as máquinas?
Você logo poderá substituir o papai.
Sinto saudade de você.
Espero te ver logo.
Um beijo,
Joanna.
{OBS: pra quem não leu o (01), aí vai o link: http://loucurasredigidas.blogspot.com/2008_11_01_archive.html }
Pensado por Eolo, Senhor dos Ventos... Às 23:11 4 pensamentos...
domingo, 30 de novembro de 2008
(01) Re-memórias
“É 21 de julho de 1982, faz muito frio e praticamente não se vê coisa viva alguma passar na rua. A neve cobriu toda a região, mais uma vez. Algumas famílias, mais carentes, foram levadas para abrigos públicos, pois à noite a temperatura cai até -15°C, nos piores dias. Desta vez, mamãe proibiu-me de sair à rua. No último inverno adoeci gravemente por me expor ao frio...
É nessas horas que sinto falta do meu pai, e do Richard. Talvez mamãe me deixasse sair se ele estivesse aqui. Mas é melhor assim, agora mamãe se preocupa muito mais comigo. Além de tudo, o Richard sabia como fazer tudo parecer culpa minha. Aquela carinha de anjo, o sorrisinho levado, os olhos azuis como o céu. É, até que sinto falta dele sim... Mas não quero mais pensar nisso, ou vou acabar ficando triste.
Há uma semana não tem aula, por causa da neve. Eu gosto da minha escola, meus colegas são meio estranhos, mas isso também é legal. Às vezes a Sarah me irrita, é verdade, mas ela insiste em ser sempre insuportável, não é culpa minha. Minha professora é uma pessoa muito boa. É uma senhora de uns 60 anos, que está sempre com seus alvos cabelos amarrados em coque, e com o habitual óculos quadrado. Ela quase nunca sorri, mas é sempre muito atenciosa. Além de tudo, ela tem uma letra muito bonita e redonda, diferente da minha... Mas não vem ao caso.
Daqui a pouco a mamãe chega do trabalho, trazendo biscoitos e bolo. Aí ela me dá um beijo e me coloca pra tomar banho. Quando termino a mesa já está arrumada, como chá e chocolate quente. O primeiro pra ela, o segundo pra mim. Aí depois que terminamos eu a ajudo a lavar a louça, e vou dormir, enquanto ela arruma a casa e prepara o almoço do dia seguinte. Minha mãe é uma pessoa muito boa, e muito esforçada também. No fim de semana, quando o tempo está ensolarado, ela me leva ao parque, e ficamos lá. Ela sempre arruma meu cabelo como quem cuida de uma boneca, e depois passa em mim o perfume dela. Ela é muito atenciosa comigo, mas também muito rígida. Qualquer deslize e ela já briga comigo. Não costumo aprontar, mas eu gostaria de ter mais liberdade. Mas gosto da minha vida como ela é, pelo menos eu acho que gosto.
Agora tenho que ir, está ficando tarde. Um beijo pra você papai, onde quer que esteja, e pra você também Richard. Até mais.”
Joanna
Pensado por Eolo, Senhor dos Ventos... Às 22:40 2 pensamentos...
terça-feira, 28 de outubro de 2008
Da verdade das coisas...
Ouvi dizer certa vez que a verdade do mundo está naquilo que não se pode ver.
“O essencial é invisível aos olhos”, disse-me com segurança um velho amigo que há tempos não vejo. Mas como posso seguir, sabendo que a essência do mundo é uma mera abstração? Como posso trilhar o bom caminho sabendo que não poderei tocar, sentir, entender, apenas almejar? Oh Céus, talvez o mundo não tenha sido feito para o homem... Seremos nós, também, uma mera abstração do mundo real que nos cerca?
Não posso crer no homem como mera passagem, somos, então, a sombra da verdade, e não a verdade em si.
Da janela posso ver o mar, posso ver a infinidade de vidas que se cruzam sem notar, sem saber, sem ao menos pensar. Aos poucos, meus pés vão deixando marcar na areia, e as ondas começam a molhar-me os pés. Sob as águas do mar, que é pra onda levar, toda a leva de dor, e algo mais que ficou... E o vento passa, soprando-me a realidade dos fatos, somos apenas a distorção do real. Até mesmo os pássaros que cantam para o mar, a paisagem da flor na janela. Da solidão dos cacos do meu quarto fizeram-se as sombras sobre mim... Temi, acreditei por um minuto que aí estivesse a verdade das coisas. Não poderia, me desfiz daqueles pensamentos. A essência do mundo está por todos os lugares, e se os olhos humanos não fossem tão turvos e cheios de orgulho, talvez pudéssemos sentir.
Senhor, explicai-me: porquê estamos aqui? Por quê tantas vozes, esses gritos de sofrimento, tanto choro, as rezas, as lamentações. Explicai, por favor, de onde vem a verdade do mundo? Estará dentro de nós? Estará na natureza, na simetria das coisas, na singularidade de cada ser? De quem são essas mãos que tocam, que curam as chagas, que manuseiam delicadamente os instrumentos a obliterar-me os sentidos? Escutai Senhor, escutai meu lamento. Explica-me, eu preciso saber. Poderei eu, humano, conhecer a verdade das coisas?
Caminho contra o sol, a luz me faz bem. Ainda posso ouvir a música, é leve, mas pulsante. O vento sopra-me a face, e afaga-me os cabelos. Já não posso ver, sinto-me parte da luz... Continuo a caminhar, um passo diante do sol, um dia na sombra de Deus...
Pensado por Eolo, Senhor dos Ventos... Às 11:15 6 pensamentos...
terça-feira, 16 de setembro de 2008
Da paisagem de inverno.
À beira daquele rio o tempo parecia parado, nem mesmo as águas sentiam-se fortes o bastante para continuar correndo. Até o dançar suave das árvores já havia cessado uma estação antes, tudo parecia anestesiado, ausente. Meus olhos já estavam fechados quando ouvi aquela voz doce. Esta parecia totalmente distinta daquela paisagem, era quente, confortante. E este som abraçou-me, afagando minha face, suavizando minhas sensações. Nesse momento, esqueci do dançar das árvores, assim como do correr das águas e dos pulmões cheios de ar. Eu era a plena expressão de um som, notas harmoniosas que combinavam-se com palavras e embalavam-me a alma.
Nesse dado momento, já não sabia onde estava meu corpo. Sem frio, anestesia ou sono, pus-me a rodopiar sobre a voz. Aquela voz mexia comigo, seu timbre claro, carinhoso. Dançávamos eu e a liberdade, sob uma paisagem que parecia algodão, ou nuvem. Teria eu morrido sem saber? Iniciados meus questionamentos, um novo elemento surgiu.
Um dedo frio tocou-me a testa, riscando cautelosamente minha utopia. Não houve tempo de pensar, desabei sobre o corpo gelado à margem do rio. Logo após o baque surdo, as sensações voltaram. Desta vez, haviam muitas vozes curiosas ao meu redor. Algumas mãos tocavam-me, e uma infinidade de pensamentos misturavam-se perante a platéia, ansiosa por alguma resposta.
- É hora de irmos embora, despeça-se logo do rio e da ponte, assim como das pessoas que assistem. Despeça-se também do frio e das árvores nuas e imóveis, descalce-se desse solo úmido e venha comigo. Mas nunca olhe pra trás.
Pensado por Eolo, Senhor dos Ventos... Às 11:30 1 pensamentos...
terça-feira, 5 de agosto de 2008
Por fim,
Ao menos hoje dê-me o direito de chorar, de não precisar levantar depois da queda, de perdoar meus erros, de não precisar dar orgulho a ninguém, de crer em mim, de não fazer nada, de cantar músicas que ninguém gosta, de deitar na grama e buscar formas nas nuvens, de me amar como eu mereço.
E se eu não correr, não disser, não amar, não tentar, não sonhar, não viver, não sentir, não gritar, que o mundo não pare, e se os dias passarem, que alguma mudança aconteça. Quanto às escolhas que eu não quis fazer, que seu fardo seja ao menos suportável. Que as rédeas da minha vida permaneçam em minhas mãos, e não me falte força pra manter a cabeça erguida. E que minha esperança não desça pelo ralo como a água que corre sobre mim.
E até que a vida limite meu alcance, que eu possa ser mais, ser luz, ter paz, ter Deus, ser meu, ser teu. E que ao menos por um dia eu sita todas as emoções de estar vivo, que eu encare todos os sorrisos, e derrame as lágrimas sufocadas, que toque a lua com o dedo, que cobre os abraços prometidos, e revele todos os segredos que eu nunca soube responder.
E que as forças dessas palavras possam erguer-me do chão, e levar-me ao mais singelo paraíso sem ao menos sair do lugar. Sei que um dia essas palavras chegarão ao destino certo, mesmo que não haja remetentes. Abra sua mente pra mim, deixe-me fazer de você minha carta de alforria. Minha semente de liberdade já foi plantada em seu coração, e que a primavera não me negue o direito de colher de ti o fruto de nossa mudança.
Pensado por Eolo, Senhor dos Ventos... Às 22:19 5 pensamentos...
quinta-feira, 19 de junho de 2008
Na manhã de inverno...
E que se fechem as cortinas, o espetáculo acabou. Não se vê mais palhaço, pipoca ou picadeiro. Não se vê mais senhoras nas varandas, não se ouvem mais cirandas. Não mais festejam o verão, nem se escondem no inverno. Não se nota solidão, não se nota, emoção, não se nota coração, não se nota nada. Não se brinca carnaval, não se une no natal, não se escolhe bem ou mal, não se faz mais nada. Não se vê mais passarada, nem se vê a criançada chegar rindo da escola.
E que se fechem as janelas, primavera já passou. Como passamos você e eu. Como passou a diversão, como viveu por tanto em vão, como vivemos você e eu. Mas o tempo não volta mais, não volta paz, não volta amar, não volta crescer. Porque o sonho acordou, e se viu velho no espelho. E nem mesmo as raras flores do inverno podem diminuir o frio, porque ele vem de dentro. Vem da lágrima que não desceu, do grito que se calou, do medo que se escondeu. Como escondemos você e eu, da chuva que cai sobre nós.
E que se fechem todas as portas, o sorriso envelheceu. A fotografia perdeu a cor, as ruas perderam a cor, os cabelos perderam a cor. Mas as águas de Março não fecharam o verão, nem promessas de vida no meu coração, nem pau, nem pedra, só o fim do caminho... E a flor que brotou já morreu, e o sonho que brotou já morreu, como também morremos você e eu. Porque quando perdemos o brilho no olhar, já não eramos nós, já não tinhamos voz, não desfizemos os nós, tão sós. E a solidão já não canta mais, já não brinca mais, já nem sai de casa... A solidão é nada. E nesta manhã o sol resolveu não nascer, mas a lua também não apareceu, assim como não aparecemos você e eu.
E que se apaguem as luzes, porquê a escuridão já é forte demais. E que a maré invada o cais, já que os dias são todos iguais. Nem mesmo os pombos suportam a praça vazia, não se ouve mais os ecos daquele dia, não se usa mais fantasia. E tanto faz, porque quando a luz se apagar, estarei sozinho outra vez... Mais uma vez. Como apagados ficamos, eu e você.
Mas quem sabe o espetáculo não começa outra vez, quando o inverno acabar...
Pensado por Eolo, Senhor dos Ventos... Às 23:21 3 pensamentos...
segunda-feira, 26 de maio de 2008
Senhora da flor
O beija-flor na janela
É ela
É dela
Brincando com a minha flor
Brincando com o meu amor
Voando e indo embora
Levantando-se e indo agora
Enquanto uma música toca
Aquela que é nossa canção
Adeus, adeus, meu amor
Senhora da minha flor...
Pensado por Eolo, Senhor dos Ventos... Às 20:46 1 pensamentos...
Momentos...
"Mas aqueles anjos agora já se foram, depois que eu cresci"